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Quando o medo da morte dos pais nos faz esquecer que eles ainda estão vivos

há 4 horas
3 min de leitura

Dias atrás durante a preparação do material de uma gravação que faria para uma rádio que é voltada para a comunidade de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos, especialmente na região de Massachusetts, abordamos o tema “Medo de Perder os Pais”. Embora a pauta tivesse o objetivo de entender como essa experiência era temida e/ou vivenciada pelos imigrantes, na verdade, se trata de algo mais comum do que se pensa e que atinge um número significativo de pessoas, independente do lugar que estejam no mundo (perto ou longe dos pais). Porque por mais que todos saibam que os pais envelhecem e que morrerão um dia, isso não significa que todos estarão prontos para esse dia porque há uma diferença enorme entre SABER e ASSIMILAR que algum dia seus pais não estarão mais vivos.



SABER que nossos pais morrerão um dia é uma das poucas certezas que temos na vida (incluindo a nossa própria morte), mas isso não torna ninguém pronto ou que signifique que o processo de perda será mais fácil. Saber que isso vai acontecer é apenas uma informação, mas o que fazer com essa informação é a parte que mais importa. E é aqui que se abre espaço para compreender o papel da ASSIMILAÇÃO nessa situação.

Assimilar uma informação é buscar compreender algo por completo; apropriar-se sobre o assunto, em outras palavras, é compreender o que está além da simples informação que “os seus pais um dia irão morrer”.

Imagine uma criança que acaba de descobrir que seus pais um dia irão morrer. Se ela receber apenas essa informação, sem qualquer contexto ou orientação que a ajude a compreender o que isso significa, é possível que passe a sofrer com pensamentos ou dúvidas do tipo: “Eles vão morrer hoje?”, “E se acontecer enquanto eu estiver na escola?”, “Enquanto eu estiver dormindo?”, “E se eles não estiverem mais vivos quando eu acordar?”.

A imaturidade da criança não permitirá que ela compreenda a complexidade dessa situação sozinha. Ela precisará da ajuda de uma pessoa mais madura e experiente para auxiliá-la nessa compreensão.

Agora, usemos esse exemplo para visualizar o SABER como se fosse uma criança e o ASSIMILAR como o adulto que chega para ajudá-la a compreender aquilo que está sendo dito. Essa dinâmica permitirá que o conhecimento de que os pais um dia morrerão não se transforme em um fardo/nascer um pavor. Muito pelo contrário, pode surgir uma consciência que permita conviver com essa possibilidade sem que ela paralise a vida.

“Uma consciência capaz de olhar para além dessa certeza”

Isso não significa que, uma vez tendo assimilado questões relacionadas à finitude, ao envelhecimento e à perda, não precisaremos revisitá-las e assimilá-las constantemente ao longo da vida. Pois, assim como nossa vida, nossas relações e nosso ambiente mudam, nossa capacidade de compreender, elaborar e até mesmo questionar aquilo que sabemos também muda.

Acontece que, quando não se faz essas revisitações diante de assuntos tão complexos, no caso de um(a) filho(a) já adulto, ao se deparar com a aproximação da realidade de não ter mais os pais presentes, pode, em vez de assimilar novamente todo o contexto, acabar sofrendo por antecipação — como a criança do exemplo.


“Isso porque, muitas vezes, a antecipação oferece uma falsa sensação de preparo.”

Antecipar não é a mesma coisa que reconhecer que a realidade que se aproxima te causa medo e dor, muito menos, te convida a refletir sobre meios para lidar com isso. Na prática, sofrer por antecipação apenas prolonga um sofrimento que ainda nem chegou... e se observar com atenção, vai perceber que até INTENSIFICA essa dor!


O hábito de querer antecipar algo... mesmo que um sofrimento, esconde a necessidade de controle (mesmo quando se trata de um assunto que ninguém tem controle – a morte!). Como se pensar em todas as possibilidades, pudesse diminuir a surpresa ou evitar um impacto maior.

Inclusive, a assimilação também não evita todas essas coisas e não significa deixar de sentir medo da perda. Significa não transformar a possibilidade da perda em uma experiência que precisa ser vivida antes da hora. Porque, quando tentamos nos preparar para a ausência, podemos deixar de perceber que ainda existe VIDA!


“O amor acontece no presente. O medo costuma morar no futuro”


Se é MEDO que você sente, é porque essa perda ainda não aconteceu. E talvez essa constatação possa ajudá-lo a voltar os olhos para aquilo que existe agora. Seus pais podem estar envelhecendo, mas ainda estão aqui. Ainda existe presença, conversa, abraço, encontro, história e, quem sabe, muitas coisas para serem vividas juntos.



 
 
 

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Beatriz Job

Psicóloga para entender o comportamento humano. Psicanalista para desvendar os mistérios do Inconsciente. E Escritora para descrever as linguagens da mente, do coração e da alma.

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