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A perversidade de Sigmund Freud -o que (ainda) não entenderam sobre a Psicanálise

  • 7 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

A teoria psicanalítica, desenvolvida por Sigmund Freud, tem mais de 130 anos de história, mas, ainda hoje, há pessoas convencidas de que o psicanalista criou uma teoria que erotiza as crianças, ao abordar temas como a sexualidade infantil. Outros alegam que Freud tinha uma fixação pelo pênis ou uma obsessão por assuntos sexuais. Mas o que mais se denuncia por trás dessas afirmações e impressões é uma compreensão distorcida e superficial da teoria psicanalítica, o que contribuiu para que muitos espalhassem críticas sobre a abordagem teórica – esbarrando nos preconceitos e nos tabus sociais do desenvolvimento da sexualidade humana.



Antes de abordar como a Psicanálise compreende alguns fenômenos, é importante esclarecer os significados sobre os conceitos de “perversidade” e “erotização” na sociedade.

A perversidade, segundo a compreensão social, refere-se à crueldade, ao desvio de caráter e a comportamentos mal-intencionados que causam prejuízos físicos ou emocionais às pessoas ao redor.


E a erotização, também segundo a compreensão social, refere-se ao ato de tornar alguém ou algo mais sexualmente atraente com o propósito de despertar sensações eróticas. E no caso da “erotização infantil”, trata-se de crianças que são incentivadas ou expostas à conteúdo ou comportamentos sexuais impróprios para a idade.


Mas, o que significam perversidade e erotização na Psicanálise?

O significado de uma palavra pode mudar totalmente de uma cultura para a outra. No caso da psicanálise, isso também acontece. Ou seja, na psicanálise, os termos “perversidade” e “erotização” têm significados muito diferentes das compreensões do senso comum, e talvez, seja justamente aí que surgem muitos mal-entendidos.


Para Freud, a erotização é um conceito técnico usado para descrever como o psiquismo humano organiza e desenvolve suas fontes de prazer desde o início da vida. Exemplos:


  • Na fase oral, a boca é frequentemente usada pelos bebês para descobrirem o mundo, pois tudo eles colocam na boca: mãos, pés, tecidos, brinquedos e eles sente prazer durante cada descoberta. Nesse caso, a boca é uma zona erotizada — o prazer está no mamar, chupar, morder.


  • Depois, o bebê entra na fase anal. É o momento que o bebê começa a desenvolver a capacidade de controlar, reter ou expelir as fezes. Provavelmente, você pode ter ouvido alguma história ou presenciado uma criança que tocou ou espalhou as próprias fezes pela parede do quarto, demonstrando divertir-se com a arte. Esse comportamento é típico da fase anal, é a descoberta de “produzir” algo, mesmo que trate das fezes da criança, isso gera prazer para ela – ou erotização, segundo a leitura da psicanálise.


  • E assim, as zonas erógenas seguem se desenvolvendo a cada fase. Na fase fálica, é o momento que a criança começa a tocar a genital. Em alguns casos, mostrar aos amiguinhos. Perceba que em nenhum dos exemplos citados houve qualquer tipo de conotação perversa ou maliciosa.


E provavelmente, ao presenciar alguns desses exemplos, você possa ter rido, se divertido com a situação e depois tomado as medidas necessárias para orientar e ajudar a criança na compreensão desses comportamentos (de acordo com cada faixa etária).


E é aqui que se abre espaço para entender o outro conceito clínico importante da Psicanálise: a "perversidade polimórfica"


Freud utilizou esse conceito para explicar que, na infância, a chamada “perversidade” (ações impulsivas, sem filtros, aparentemente transgressoras) representa um momento natural da organização psíquica entre desejos, regras e comportamentos. Perceba que para isso acontecer, a criança precisou apenas atender seus desejos.


Isso significa que todos, em algum momento da infância, passamos por traços perversos: buscamos prazer de maneiras não normativas do ponto de vista adulto — como esfregar fezes na parede ou engolir uma moeda. Embora possam parecer estranhos, esses comportamentos fazem parte de um processo saudável e esperado de estruturação do psiquismo humano.


Voltando as reações negativas que foram citadas no início do artigo, acredita-se que há algo maior do que uma simples crítica pessoal ao Freud:


Trata-se de uma resistência coletiva em lidar com temas que nos atravessam desde sempre — o corpo, o prazer, o desejo, a sexualidade.

Então, quando Freud aborda as outras fases: latência e genital, assim como as outras, sua proposta não é se fixar no pênis ou frisar assuntos sobre relações íntimas. Porque a Psicanálise nunca teve como proposito erotiza o ser humano no sentido vulgar ou moral do termo. A abordagem busca justamente reconhecer que a sexualidade está presente desde o início da vida, mas não necessariamente com conotações adultas.


Isso significa que a atenção dada por Freud aos temas da sexualidade (e tudo que pertence a esse universo) tem como propósito descrever e entender como se organiza o desejo humano, o inconsciente e os conflitos psíquicos desde o início da vida. E quando Sigmund trouxe luz para essa hipótese, quebrou a crença de que a sexualidade surgia apenas na época da puberdade.


Por isso, chamar Freud de perverso revela menos sobre ele e mais sobre o incômodo coletivo com o que é íntimo, pulsional e humano. Talvez o que (ainda) não se entendeu sobre a Psicanálise seja justamente aquilo que mais precisamos enfrentar: o quanto desconhecemos de nós mesmos.

 



 
 
 

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Beatriz Job

Psicóloga para entender o comportamento humano. Psicanalista para desvendar os mistérios do Inconsciente. E Escritora para descrever as linguagens da mente, do coração e da alma.

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